sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson

BY Monique Monteiro IN , , , , , No comments

Essa é a primeira postagem do blog, e às vésperas do aniversário de morte da Shirley Jackson, já começo me dando uma grande responsabilidade, que é a de falar de uma das maiores escritoras norte-americanas. Me atribui essa responsabilidade pelo simples fato de que procurei livros dela durante uns 13 anos, desde que comecei a colecionar artigos de horror (livros, filmes, brinquedos), e esse é apenas o segundo livro dela que leio, mas o primeiro que compro (eu poderia ler em inglês, mas confesso a preguiça). O outro livro dela publicado no Brasil é o Assombração na Casa da Colina, lançado aqui em 1983 pela editora Francisco Alves. Essa edição é bastante rara, e na Estante Virtual o preço é bem salgado. Então o jeito foi ler o e-book, cedido pelo Rodrigo. Para a minha imensa felicidade, esse ano a Suma de Letras lançou Sempre Vivemos no Castelo, que ainda era inédito no Brasil, e já prometeu lançar o Assombração.

Mas vamos ao que interessa:
Assim como Assombração na Casa da Colina, eu amei Sempre Vivemos no Castelo, mas por motivos totalmente diferentes: Assombração na Casa da Colina é uma história de horror sobrenatural, enquanto Sempre Vivemos no Castelo é um suspense sem elementos sobrenaturais.



Nele, a jovem Mary Katherine “Merricat” Blackwood vive com sua irmã, Constance, seu tio Julian e seu gatinho Jonas em Vermont, afastadas do restante da população, em sua grande propriedade, que foi cercada por seu pai enquanto ele ainda era vivo. Constance, a irmã mais velha, nunca vai além do seu jardim, e Merricat vai à cidade fazer compras, pegar e entregar livros na biblioteca e enfrentar a hostilidade dos moradores da cidade. Essa hostilidade ocorre por causa do o passado da família Blackwood: seis anos antes do momento em que se passa a história, Constance foi acusada de envenenar sua família durante o jantar e, mesmo inocentada, os moradores da cidade não esquecem o fato e continuam criando mal estar para as jovens irmãs.
Merricat é uma jovem introspectiva e imaginativa, que faz dos recantos da propriedade das Blackwood seus santuários, onde pode se esconder e enterrar seus talismãs de proteção contra os vizinhos hostis. Tudo o que ela descreve é vívido e bastante sensorial, você quase sente sua mão tocando a grama alta do jardim da propriedade. Constance, ao seu modo, também é bastante cativante. Aproximadamente dez anos mais velha que Merricat, reclusa, mantém a ordem na casa, da forma como sua mãe gostava que permanecesse, monopoliza a cozinha, limpa, cuida do tio inválido e do jardim. Um ponto curioso é que Merricat não tem autorização para cuidar da cozinha. O tio, sobrevivente do ocorrido seis anos antes, transita entre a sensatez e o delírio, e passa seus dias revirando suas anotações a respeito do fatídico dia da morte dos membros de sua família.
Merricat sente uma mudança nessa programação de sua família se aproximando ao voltar do vilarejo, um dia, e encontrar Constance no jardim dizendo que qualquer dia irá à cidade. Nesse mesmo dia, elas recebem a visita da sra. Helen Clarke, que veio acompanhada da sra. Lucille Wright, o que causa imenso desconforto em Merricat, pois a sra. Wright se mostra bastante curiosa a respeito do passado das irmãs. Mas o equilíbrio, mantido por Merricat, é quebrado com a chegada de Charles, primo das Blackwood, que transforma totalmente a vida no núcleo formado pelas irmãs, o tio Julian e o gato Jonas, obrigando Merricat a tomar providências um tanto drásticas na tentativa de restaurar a antiga ordem da família.
Sempre Vivemos no Castelo não é uma história de fantasmas (o nome e a capa da edição norte-americana sempre me remeteu ao gótico vitoriano). Nele, Shirley aborda o aspecto da perseguição levantada contra por uma cidade contra uma família, que vive isolada do restante da população local, refletindo a perseguição sofrida por que Shirley durante sua vida e seu isolamento e reclusão, que inspirou as irmãs Blackwood, isolamento esse que rendeu muitas lendas em torno da escritora que se recusava a dar entrevistas ou promover seus livros. No começo do livro, tive a impressão de que Constance sofria de síndrome do pânico, mesmo sabendo do que se tratava a história. Isso também é um reflexo da personalidade de Shirley, que sofreu de agorafobia. Em
Sempre Vivemos no Castelo não existem objetos caindo das mesas ou portas se fechando bruscamente quando não há vento algum, apesar das superstições de Merricat de enterrar talismãs para proteger Constance e repetir palavras mágicas para afugentar o primo indesejado. Os fantasmas, nessa história, são a intolerância e perseguição que sofrem as irmãs e a ganância e violência de Charles Blackwood.
Este foi o último livro de Shirley Jackson, publicado em 1962, três anos antes de sua morte, e ainda era inédito no Brasil até esse ano, e é considerado sua obra prima. Pretendo falar mais sobre ela, mas isso fica pra um outro post!