sábado, 21 de outubro de 2017

A Mão Esquerda da Escuridão


Publicado originalmente em Leia Mulheres, em 5 de outubro de 2016

“A Mão Esquerda da Escuridão” é quase um relato antropológico de uma raça alienígena. Nele, Ursula Le Guin descreve dois povos de um mesmo planeta, e quase conseguimos tocá-los, dada a maneira como são descritos. Ela descreve sua fisiologia, suas características psicológicas, seus hábitos, seus temores.
O livro narra a missão de Genly Ai ao planeta Gethen/Inverno, em busca de integrar Gethen à federação galática chamada Conselho Ekumênico, uma espécie de União Europeia intergalática, para que haja trocas culturais e científicas entre os diversos povos humanos que compõem o Ekumen (ao todo, oitenta e cinco planetas compõem o Ekumen). Gethen é um planeta em plena era do gelo e com características medievais. Mas a condição mais adversa que ele enfrenta é o fato de os Gethenianos serem andróginos, ou seja, não existe a divisão mulher/homem em Gethen. Portanto, não existe gênero em Gethen.
Os Gethenianos, uma espécie humana e acredita-se que tenham sido criados pelos Hain através de manipulação genética (que semearam diversos planetas e criaram o Conselho Ekumênico), são férteis, e, em determinado momento de sua vida, entram no kemmer, o período fértil. No kemmer, a pessoa “vira” homem ou mulher, pelo tempo em que durar o período de kemmering. Fora do kemmer, o Getheniano não está predisposto ao sexo. Qualquer Getheniano pode engravidar, e quem “foi homem” pode “ser mulher” em outro kemmer. Isso incomoda Genly, que está acostumado ao binarismo sexual da Terra a às suas socializações: mulheres subjetivas e dissimuladas, homens objetivos e francos. Mas o fato de Genly estar “sempre no kemmer” causa estranheza nos Gethenianos, que consideram Genly e os terráqueos como pervertidos.
Outra coisa muito interessante em “A Mão Esquerda da Escuridão” é que é dito que a cor de pele dos terráqueos é negra. Em plena década de 1960, uma mulher escreve um livro sobre uma viagem espacial a um planeta onde não existe gênero e diz que os terráqueos são negros.
http://stevenceliceo.blogspot.com.br/2012/04/gethen-winter.html
“A Mão Esquerda da Escuridão” é bastante denso. Como é narrado em primeira pessoa, alternando a visão de Genly Ai com a de Estraven, seu único amigo no planeta, se torna um pouco confuso. Os capítulos são entremeados por capítulos menores que contam alguma lenda ou história de Gethen (como, por exemplo, seu belíssimo Mito de Criação). O fato de Gethen ser um planeta com temperaturas abaixo dos 30° negativos é importante, mas não é decisivo. E mesmo sendo um livro de ficção científica, Ursula não se prende a narrar como foi a viagem de Genly até Gethen, mas a narrar importantes fatos políticos do planeta e toda a sua questão sexual, contrapondo a visão machista de Genly ao fato de os Gethenianos serem humanos andróginos. As datas que se apresentam no livro são as Gethenianas, e não me lembro de alguma passagem que diga em que ano a Terra se encontra. Porém, os Gethenianos estão sempre no Ano Um.
Sou bastante tendenciosa com “A Mão Esquerda da Escuridão”, pois é uma ficção científica que me fez pensar não em como será a Terra daqui 100 anos, ou o que acontecerá se construirmos um elevador da Terra à Lua. Ele me fez pensar (mais) nos papeis de gênero da nossa sociedade, como nos vemos dentro do nosso gênero, o que esperamos de nós e o que nos é ensinado a esperar de nós. Ursula faz brincadeiras com o pensamento de Genly como “essa pessoa é dissimulada como uma mulher” justamente (acredito) pra nos confrontar com a ideia de que existe um comportamento naturalmente feminino e outro masculino. Recomendo “A Mão Esquerda da Escuridão” para qualquer pessoa, feminista ou homem, que não seja fã de ficção científica, interessado ou não em questões de gênero. E vale a pena cada palavra.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Assombração na Casa da Colina, de Shirley Jackson



O sub-subgênero (rs) casa assombrada é um dos meus preferidos quando se trata de horror, senão o preferido, e Assombração na Casa da Colina é meu “Santo Graal” literário desde, mais ou menos, 2006. Porém, desisti da busca porque os exemplares disponíveis para venda, a edição de 1983 da Editora Francisco Alves, estão bem caros.
A história começa quando o dr. John Montague, pesquisador de casos paranormais, decide realizar um experimento em que planeja provar que a octogenária, porém bem conservada, mansão conhecida por Casa da Colina é assombrada. Para isso, ele contacta pessoas que, no passado, tiveram experiências com o sobrenatural, dentre elas Theodora (Theo), Eleanor Vance (Nell), entre outros, porém apenas as duas aceitam o convite. O herdeiro da casa, Luke Sanderson, também é escalado para participar, como condição para que a casa seja alugada.
A história é contada sob a ótica de Nell, uma mulher insegura, tímida e solitária, e ela não é uma narradora confiável. Nell, que possui poucas habilidades sociais, e se sente especial por ter sido convidada a participar do experimento, começa a se sentir confortável na casa, como se fosse parte do ambiente, pertencesse ao local, e a casa se aproveita de sua fraqueza e revela suas facetas, já que ela é a mais suscetível entre os participantes do experimento. Nell vai, aos poucos, perdendo o contato com a realidade e, como quem narra a história é ela, não sabemos se os eventos são fruto de sua imaginação ou se a casa é realmente assombrada e se abre para Nell.
A casa, como já disse, apesar de antiga está bem conservada. Não é uma ruína decrépita que ameaça desabar na cabeça do primeiro que entrar. Ela parece uma casa normal, apesar de ter sido construída de forma estranha: a casa possui ângulos não-convencionais, em torres que são impossíveis de localizar pelas janelas, e é um labirinto para os desavisados. Como em diversos contos de H.P. Lovecraft (Sonhos na Casa da Bruxa, Nas Montanhas da Loucura, só pra citar alguns) é quase impossível imaginar uma construção que enlouquece as pessoas só de olhar.

Um dos autores preferidos de quem curte horror, Stephen King, cita Shirley como inspiração. Quem já leu O Iluminado ou assistiu Rose Red e O Diário de Ellen Rimbauer, percebe logo a referência à Assombração na Casa da Colina. O Hotel Overlook parece perfeitamente normal até a chegada da família Torrance. O hotel-entidade percebe a fraqueza em Jack e o domina, assim como a Casa da Colina domina Nell. Já Rose Red também aparenta ser normal, mas ela é diferente, por dentro, do que se vê por fora. Nessa história, o parapsicólogo Joyce Reardon leva um grupo de médiuns para investigar estranhos eventos que ocorreram na mansão, incluindo o desaparecimento e a morte de diversas pessoas. Para criar o roteiro de Rose Red e O Diário de Ellen Rimbauer, King também se baseou na história de Sarah Winchester, a viúva do criador dos rifles Winchester que, após a morte de seu marido, em 1881, iniciou a construção de uma casa que deveria continuar a ser construída, por tempo indeterminado, para si e para as almas daqueles que foram vítimas dos rifles Winchester. A construção cessou imediatamente com a morte de Sarah, em 5 de setembro de 1922, após trinta e oito anos de construção.
Conhecendo um pouco da vida de Shirley, posso me arriscar a sugerir que Eleanor é um pouco seu reflexo, bem como temos um pouco da personalidade da autora dividida entre as irmãs Blackwood, de Sempre Vivemos no Castelo. Shirley era uma pessoa bastante problemática, insegura, tinha problemas com álcool, fumava em excesso e tomava muitas medicações. Após o lançamento de Assombração na Casa da Colina, ela desenvolveu agorafobia, e enquanto escreveu Sempre Vivemos no Castelo, teve uma crise de psicose e depressão, e alegava que era perseguida pelos vizinhos, se recusando a sair de sua casa por três meses após o lançamento deste livro. Sua insegurança e solidão estão presentes em Nell, enquanto a perseguição e consequente isolamento que Shirley alegava sofrer transparece em nas irmãs Blackwood.
Além disso, após o lançamento de The Lottery (sem tradução no Brasil), Shirley passou a receber cartas de ódio e até sua mãe criticou duramente seu conto, que foi publicado na revista The New Yorker em 1948. The Lottery conta a história de um vilarejo da Nova Inglaterra em que algumas pessoas serão sacrificadas, para garantir uma boa colheita. Soou familiar?
The Wicker Man (O Homem de Palha, de 1973, e sua refilmagem O Sacrifício, de 2006), e até Jogos Vorazes, são histórias baseadas no conto de Shirley.
O livro As Possuídas do Diabo (Harvest Home), do Thomas Tryon (lançado no Brasil pelo Círculo do Livro) conta uma história bastante similar, e vale a pena conferir. Existe uma minissérie de Harvest Home, que foi produzida em 1978 e estrelada por Bette Davis.
Assombração na Casa da Colina não tem previsão de relançamento no Brasil, mas se você quiser muito ler, tem uma tradução legal em pdf e epub rolando pela internet. Além disso, duas versões foram feitas para o cinema: The Haunting (Desafio do Além, no Brasil), de 1963, dirigido por Robert Wise, e sua refilmagem não-tão-boa, também chamada The Haunting na gringa, mas traduzida como "A Casa Amaldiçoada", 1999, com Lili Taylor (a Carolyn Perron, de The Conjuring), Catherine Zeta-Jones, Liam Neeson e Owen Wilson. Além disso, a Netflix está produzindo uma série de dez episódios baseada em Assombração, que traz a história para os dias atuais, com direção de Mike Flanagan (do excelente Oculus), com Michiel Huisman (o Daario Naharis, de Guerra dos Tronos) no papel de Steven Crane, descendente de Hugh Crain, a mente por trás da bizarra arquitetura de Casa da Colina, mas só será lançada em 2018.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Menina Submersa, de Caitlín Kiernan


Publicado originalmente em Leia Mulheres, em 22 de novembro de 2016.

"Queria ser escritora, escritora de verdade, pois, se eu fosse, imagino que não estaria fazendo uma confusão tão feia com essa história. Me perdendo, tropeçando nos meus pés. Queria ser lúcida o suficiente para sempre distinguir fato de imaginação, (…)"
India Morgan Phelps, ou Imp, é uma jovem pintora diagnosticada com esquizofrenia que decide escrever uma história de fantasmas, não uma história qualquer de fantasmas, mas sobre os fantasmas que assombram a sua mente. Essa história é escrita num fluxo de consciência e, coincidência ou não, ela é fascinada por Virgínia Woolf, escritora britânica que viveu no final do século 19 e início do século 20, e utilizou essa forma de escrita em sua obra. A escolha de Virginia para ser a escritora preferida de Imp não parece ser proposital, pois Virginia se suicidou no rio próximo à sua casa, e morte e água são constantes em A Menina Submersa.

Imp trabalha numa loja de materiais de pintura e também pinta quadros para vender aos turistas que visitam sua cidade, Providence. Além disso, a jovem vive com sua namorada, Abalyn e tem um fascínio (ou seria uma obsessão?) por por temas relacionados à sereias e lobos: A Pequena Sereia, conto-de-fadas inspirado no folclore dinamarquês, bem como outras referências folclóricas às selkies, criaturas mitológicas que vivem como focas no mar e assumem a forma humana em terra, e a russalka, ninfa aquática do folclore eslavo; com os lobos a relação é mais espinhenta.

Numa determinada noite, Imp decide passear de carro pela cidade enquanto sua namorada trabalha, e encontra uma mulher nua no acostamento. Ela acaba levando a mulher para sua casa, o que leva a uma briga com Abalyn. Eva Canning, que não sabemos se é real, se é um fantasma ou se é fruto da mente de Imp, aparece dissociada em duas, a Eva de julho, que Imp associa às sereias e ao quadro A Menina Submersa, e outra em novembro, no inverno, associada aos lobos e ao quadro Fecunda Ratis. Esses quadros, como a autora explica no final do livro, são fictícios, mas a sua descrição é tão bem feita que somos levados a acreditar que eles realmente existem. A presença de Eva em sua vida leva a uma briga com Abalyn, que vai embora da casa, deixando Imp sozinha e completamente paranoica. Ela deixa de tomar os remédios e somos levadas numa viagem à sua mente como ela realmente é.

A forma de fluxo de consciência da história é um dos pontos positivos do livro, e com isso Caitilín consegue criar uma atmosfera tão opressiva em torno de Imp que cheguei a imaginar que a autora falava sobre si ou sobre alguém próximo. Imp não é uma narradora confiável, nós nunca sabemos se ela está vendo um fantasma, se ela está falando sobre algo que aconteceu ou se ela criou aquela memória, dialoga consigo a ponto de às vezes parecer que existe um narrador onisciente acima dela. A não linearidade da narrativa confunde, mas não é exatamente assim que funciona com a nossa mente? Nossa memória e lembranças não são exatamente confiáveis, e Caitlín conseguiu imprimir isso muito bem, e apesar de ela dizer que não é uma escritora de horror, “A Menina Submersa” é uma história que fala do horror de não saber se está são, de não ter certeza sobre o que se vê, de não poder confiar plenamente em seus sentidos, e Caitlín conseguiu obter essa incerteza muito bem.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sempre Vivemos no Castelo, de Shirley Jackson


Essa é a primeira postagem do blog, e às vésperas do aniversário de morte da Shirley Jackson, já começo me dando uma grande responsabilidade, que é a de falar de uma das maiores escritoras norte-americanas. Me atribui essa responsabilidade pelo simples fato de que procurei livros dela durante uns 13 anos, desde que comecei a colecionar artigos de horror (livros, filmes, brinquedos), e esse é apenas o segundo livro dela que leio, mas o primeiro que compro (eu poderia ler em inglês, mas confesso a preguiça). O outro livro dela publicado no Brasil é o Assombração na Casa da Colina, lançado aqui em 1983 pela editora Francisco Alves. Essa edição é bastante rara, e na Estante Virtual o preço é bem salgado. Então o jeito foi ler o e-book, cedido pelo Rodrigo. Para a minha imensa felicidade, esse ano a Suma de Letras lançou Sempre Vivemos no Castelo, que ainda era inédito no Brasil, e já prometeu lançar o Assombração.

Mas vamos ao que interessa:
Assim como Assombração na Casa da Colina, eu amei Sempre Vivemos no Castelo, mas por motivos totalmente diferentes: Assombração na Casa da Colina é uma história de horror sobrenatural, enquanto Sempre Vivemos no Castelo é um suspense sem elementos sobrenaturais.



Nele, a jovem Mary Katherine “Merricat” Blackwood vive com sua irmã, Constance, seu tio Julian e seu gatinho Jonas em Vermont, afastadas do restante da população, em sua grande propriedade, que foi cercada por seu pai enquanto ele ainda era vivo. Constance, a irmã mais velha, nunca vai além do seu jardim, e Merricat vai à cidade fazer compras, pegar e entregar livros na biblioteca e enfrentar a hostilidade dos moradores da cidade. Essa hostilidade ocorre por causa do o passado da família Blackwood: seis anos antes do momento em que se passa a história, Constance foi acusada de envenenar sua família durante o jantar e, mesmo inocentada, os moradores da cidade não esquecem o fato e continuam criando mal estar para as jovens irmãs.
Merricat é uma jovem introspectiva e imaginativa, que faz dos recantos da propriedade das Blackwood seus santuários, onde pode se esconder e enterrar seus talismãs de proteção contra os vizinhos hostis. Tudo o que ela descreve é vívido e bastante sensorial, você quase sente sua mão tocando a grama alta do jardim da propriedade. Constance, ao seu modo, também é bastante cativante. Aproximadamente dez anos mais velha que Merricat, reclusa, mantém a ordem na casa, da forma como sua mãe gostava que permanecesse, monopoliza a cozinha, limpa, cuida do tio inválido e do jardim. Um ponto curioso é que Merricat não tem autorização para cuidar da cozinha. O tio, sobrevivente do ocorrido seis anos antes, transita entre a sensatez e o delírio, e passa seus dias revirando suas anotações a respeito do fatídico dia da morte dos membros de sua família.
Merricat sente uma mudança nessa programação de sua família se aproximando ao voltar do vilarejo, um dia, e encontrar Constance no jardim dizendo que qualquer dia irá à cidade. Nesse mesmo dia, elas recebem a visita da sra. Helen Clarke, que veio acompanhada da sra. Lucille Wright, o que causa imenso desconforto em Merricat, pois a sra. Wright se mostra bastante curiosa a respeito do passado das irmãs. Mas o equilíbrio, mantido por Merricat, é quebrado com a chegada de Charles, primo das Blackwood, que transforma totalmente a vida no núcleo formado pelas irmãs, o tio Julian e o gato Jonas, obrigando Merricat a tomar providências um tanto drásticas na tentativa de restaurar a antiga ordem da família.
Sempre Vivemos no Castelo não é uma história de fantasmas (o nome e a capa da edição norte-americana sempre me remeteu ao gótico vitoriano). Nele, Shirley aborda o aspecto da perseguição levantada contra por uma cidade contra uma família, que vive isolada do restante da população local, refletindo a perseguição sofrida por que Shirley durante sua vida e seu isolamento e reclusão, que inspirou as irmãs Blackwood, isolamento esse que rendeu muitas lendas em torno da escritora que se recusava a dar entrevistas ou promover seus livros. No começo do livro, tive a impressão de que Constance sofria de síndrome do pânico, mesmo sabendo do que se tratava a história. Isso também é um reflexo da personalidade de Shirley, que sofreu de agorafobia. Em
Sempre Vivemos no Castelo não existem objetos caindo das mesas ou portas se fechando bruscamente quando não há vento algum, apesar das superstições de Merricat de enterrar talismãs para proteger Constance e repetir palavras mágicas para afugentar o primo indesejado. Os fantasmas, nessa história, são a intolerância e perseguição que sofrem as irmãs e a ganância e violência de Charles Blackwood.
Este foi o último livro de Shirley Jackson, publicado em 1962, três anos antes de sua morte, e ainda era inédito no Brasil até esse ano, e é considerado sua obra prima. Pretendo falar mais sobre ela, mas isso fica pra um outro post!